A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, famosa AIDS, foi, praticamente, a pior vilã das infecções virais oitentistas no nosso país. Não tinha tratamento, o diagnóstico era complicado, a população não tinha acesso à informação, os infectados são discriminados e, até hoje, não tem cura. Felizmente, a partir de dezembro de 1996, houve a distribuição gratuita dos medicamentos antirretrovirais para a população brasileira, dando uma nova chance aos pacientes de seguir em frente. Apesar da melhora na qualidade de vida – e da possibilidade de sobreviver ao vírus – as pessoas HIV+ ainda sofrem com infecções oportunistas e, como se não bastasse, também são mais propensas a desenvolver outras doenças graves, como o câncer.

ANTES DE TUDO: O QUE É AIDS?

Segundo o Ministério da Saúde, a síndrome é causada pelo vírus da imunodeficiência humana, o HIV, que ataca diretamente o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças¹. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. O vírus entra nas células, altera o seu DNA para fazer mais cópias de si mesmo e, depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.

É importante deixar claro que ter o HIV não implica, obrigatoriamente, em desenvolver a AIDS. A síndrome só aparece quando há a manifestação dos sintomas. No entanto, essas pessoas continuam a transmitir o vírus através de relações sexuais desprotegidas, pelo compartilhamento de seringas contaminadas ou de mãe para filho durante a gravidez e a amamentação, quando não tomam as devidas medidas de prevenção. Por isso, é sempre importante fazer o teste e se proteger em todas as situações.

É O VÍRUS QUE CAUSA CÂNCER?

Não necessariamente. O HIV afeta diretamente o sistema imunológico, mas pessoas soropositivas têm uma maior probabilidade de desenvolver câncer se comparado com pessoas saudáveis da mesma idade². São chamados de “cânceres associados ao HIV”, e os três principais são: sarcoma de Kaposi, linfoma não Hodgkin agressivo de células B e câncer cervical. Em comparação com a população em geral, as pessoas infectadas com HIV têm cerca de 500 vezes mais probabilidade de serem diagnosticadas com sarcoma de Kaposi, 12 vezes mais chances de serem diagnosticadas com linfoma não-Hodgkin e, entre as mulheres, 3 vezes mais chances de serem diagnosticadas com câncer cervical³. Infelizmente, além de do maior risco para desenvolver câncer, a infecção pelo HIV também está associada a um risco aumentado de morrer por essa doença⁴.

Como o HIV interfere na imunidade, também reduz a capacidade do corpo de lutar contra outras infecções virais, por exemplo, que podem levar a outros tipos de câncer e os que tem maior probabilidade são⁵:

  • Herpesvírus associado ao sarcoma de Kaposi (KSHV), também conhecido como herpesvírus humano 8 (HHV-8), que causa tanto esse sarcoma como alguns subtipos de linfoma;
  • Vírus Epstein-Barr (EBV), que leva a alguns subtipos de linfoma não Hodgkin e Hodgkin;
  • Papilomavírus humano (HPV), tipos de alto risco que causam câncer cervical, a maioria dos cânceres anal e câncer orofaríngeo, peniano, vaginal e vulvar;
  • Vírus da hepatite B (HBV) e vírus da hepatite C (HCV), que causam câncer de fígado.

Fora a probabilidade aumentada para cânceres causados por outras infecções virais, é importante destacar também que outros fatores de risco tradicionais também estão associados com o aumento da prevalência de câncer entre os soropositivos. Podemos especialmente citar o tabagismo (uma causa conhecida de câncer de pulmão e outros) e abuso de álcool (que pode aumentar o risco de câncer de fígado)⁵. Sem falar que, por causa do comprometimento imunológico, tanto a imunossupressão quanto a inflamação, podem ter papéis diretos ou indiretos no desenvolvimento de alguns tipos de câncer que são elevados em pessoas infectadas com HIV⁶.

O QUE AS PESSOAS INFECTADAS PODEM FAZER PARA REDUZIR O RISCO DE CÂNCER?

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos⁷, para reduzir a probabilidade de desenvolver câncer, os pacientes com aids devem seguir corretamente o tratamento com o coquetel de antirretrovirais proposto pelo médico. Os medicamentos reduzem sensivelmente o risco de sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin e aumenta a sobrevida geral. No caso do câncer de pulmão, câncer oral e outros, o risco pode ser reduzido ao parar de fumar.

Infelizmente, grande parte dos pacientes HIV+ também estão infectadas com algum dos vírus que causam hepatite, tanto o HBV quanto o HCV. Por isso, é preciso realizar os testes a detecção desses vírus também. Assim, devem conversar com o médico para discutir a melhor abordagem de tratamento para todas as infecções virais. Da mesma maneira, os pacientes devem verificar se têm algum tipo de verrugas genitais ou lesões que sugerem a infecção por HPV, outro vírus que causa cânceres.

Finalmente, gostaria de destacar que o diagnóstico precoce é essencial nesses pacientes. O acompanhamento médico e a busca pelo tratamento correto e personalizado são indispensáveis para uma maior sobrevida. Não fique no escuro, é sempre melhor saber antes para tratar mais cedo!

Tem mais alguma outra dúvida sobre o assunto? Estou disposto a ajudar, entre em contato comigo!

Dr. Rafael Oliveira | Cirurgião Oncológico

Fontes:

¹ Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, Ministério da Saúde, “O que é HIV”. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-e-hiv
² Grulich, Andrew E et al., Lancet, “Incidence of cancers in people with HIV/AIDS compared with immunosuppressed transplant recipients: a meta-analysis.” Disponível em: doi:10.1016/S0140-6736(07)61050-2
³ Wang, Chia-Ching J et al., Current infectious disease reports, “Non-AIDS-Defining Malignancies in the HIV-Infected Population.” Disponível em: doi:10.1007/s11908-014-0406-0
⁴ Coghill, Anna E et al., American Association for Cancer Research, “Excess Mortality among HIV-Infected Individuals with Cancer in the United States.” Disponível em: doi:10.1158/1055-9965.EPI-16-0964
⁵ Silverberg, Michael J, and Donald I Abrams., Current opinion in oncology, “AIDS-defining and non-AIDS-defining malignancies: cancer occurrence in the antiretroviral therapy era.” Disponível em: doi:10.1097/CCO.0b013e3282c8c90d
⁶ Goncalves, Priscila H et al., Seminars in oncology, “Cancer prevention in HIV-infected populations.” Disponível em: doi:10.1053/j.seminoncol.2015.09.011
⁷ National Cancer Institute, National Institutes of Health (NIH), “HIV Infection and Cancer Risk”. Disponível em: https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/risk/infectious-agents/hiv-fact-sheet

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