Um ano e meio a três anos: esta é a quantidade média de tempo que os homens vivem menos do que as mulheres, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Talvez a explicação que veio à sua cabeça seja devido a hábitos de vida, trabalho, atitudes mais irresponsáveis, abuso de álcool e cigarro… Não que esses fatores sejam descartados, mas, de acordo com as descobertas recentes, a resposta pode estar no material genético. Além do mais, isso pode também estar relacionado com o fato da incidência de câncer neles ser maior do que nas mulheres.
ELES TÊM MAIS CÂNCER PORQUE SE CUIDAM MENOS?
Realmente há uma dificuldade notável, para a maioria dos homens, em buscar atendimento médico, seguir adequadamente o tratamento, mas não é isso que esses novos dados nos trazem. De acordo com dados notados pelo neuroncologista Josh Rubin, nos seus 25 anos de carreira, mais da metade dos pacientes com câncer cerebral eram meninos. Isso tanto no Instituto de Câncer Dana-Farber, em Boston, como na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, onde trabalha. Esses dados também batem com a média nacional americana e com os números mundiais, o que mostra que a alta incidência de câncer em pessoas do sexo masculino não está, necessariamente, relacionada com hábitos de vida.
Com isso em mente, Rubin comandou um estudo sobre a manifestação do glioblastoma, um tumor cerebral, em camundongos (1). De acordo com os resultados, o grupo descobriu que células retiradas de camundongos machos se transformavam de células saudáveis em cancerosas mais facilmente do que as das fêmeas. A proposta é que as células femininas eram mais resilientes à perda de função da proteína supressora de tumor p53 – responsável por controlar o ciclo celular e impedir a formação de células cancerosas, que é desregulada em uma ampla gama de cânceres, incluindo a maioria dos glioblastomas.
Os pesquisadores enfatizaram que as células masculinas e células femininas são “simplesmente” diferentes e que essa diferença pode desempenhar um papel importante no motivo pelo qual os homens têm mais câncer. Apesar disso ser muito atribuído aos hormônios circulantes e sua atuação nos diferentes sexos, Rubin afirma que “há muita biologia que não é o efeito dos hormônios sexuais circulantes”, e sugere que essas alterações são mais propensas aos processos moleculares do material genético.
ENTÃO A RESPOSTA ESTÁ NOS GENES?
Digamos que as informações do nosso código genético que favorecem as pessoas do sexo masculino serem mais propensas a terem câncer compõe apenas uma peça do quebra-cabeça da biologia do nosso organismo. Temos que ter em mente que existem inúmeras variáveis que desconhecemos dos nossos próprios processos celulares, incontáveis tipos de cânceres diferentes e que, por serem células anormais, é impossível prever todos os aspectos do seu comportamento no paciente.
No entanto, nos últimos anos, os pesquisadores começaram a caracterizar as diferenças celulares relacionadas ao câncer entre homens e mulheres. Um outro estudo feito pelas universidades de Harvard e o MIT (2) identificou um grupo de genes supressores de tumor que escapam da inativação do cromossomo X em células tumorais de pacientes do sexo feminino e, portanto, são mais expressos em mulheres do que em homens. Então, segundo esses cientistas, carregar duas cópias do cromossomo X dá às mulheres uma “dose dupla” dos supressores de tumor em comparação com homens que só têm um único cromossomo X, são XY.
Mas isso também é só uma parte das variáveis, como disse anteriormente. Outros estudos, por exemplo, também apontam diferenças no comportamento celular de cânceres entre homens e mulheres que os tornam mais agressivos neles. Isso tem a ver com o metabolismo da energia celular, padrões de expressão gênica e com as vias de sinalização dentro do organismo (3,4).
E COMO FICAM AS MEDIDAS DE PREVENÇÃO?
Devem melhorar cada dia mais. Esses dados só reforçam o fato de que a prevenção e o diagnóstico precoce são extremamente essenciais no tratamento dos pacientes. Especificamente no mês de novembro, acontece a campanha do Ministério da Saúde “Novembro Azul” para a conscientização do câncer de próstata. É importante que os homens façam o exame anualmente para a detecção, mas também fiquem atentos aos outros tipos de cânceres que podem ser acometidos, e, infelizmente, podem ocorrer de uma maneira mais agressiva do que nas mulheres. Não é preciso ter medo, quanto mais cedo for descoberto, melhor o prognóstico do tratamento. A sua saúde é apenas sua, e basta você mesmo valorizá-la da maneira que merece, cuide-se!
Tem mais alguma outra dúvida sobre o assunto? Estou disposto a ajudar, entre em contato comigo!
Dr. Rafael Oliveira | Cirurgião Oncológico
Fontes:
¹ Sun, Tao et al., The Journal of clinical investigation, “Sexually dimorphic RB inactivation underlies mesenchymal glioblastoma prevalence in males.” Disponível em: doi:10.1172/JCI71048
² Dunford, Andrew et al., Nature genetics, “Tumor-suppressor genes that escape from X-inactivation contribute to cancer sex bias.” Disponível em: doi:10.1038/ng.3726
³ Ippolito, Joseph E et al., JCI insight, “Sexual dimorphism in glioma glycolysis underlies sex differences in survival.” Disponível em: doi:10.1172/jci.insight.92142
⁴ Yang, Wei et al., Science translational medicine, “Sex differences in GBM revealed by analysis of patient imaging, transcriptome, and survival data.” Disponível em: doi:10.1126/scitranslmed.aao5253
⁵ Ms. Jef Akst, The Scientist, “Why Is Cancer More Common in Men Than in Women?” Disponível em: https://www.the-scientist.com/notebook/why-is-cancer-more-common-in-men-than-in-women–65640
