A área da oncologia é marcada por incertezas, medo e perspectivas nem sempre positivas. Mas, não precisa – e não deve – ser assim. O diagnóstico de câncer, por mais assustador que seja, não deve ser encarado negativamente como uma sentença imutável. Claro que cada paciente, com sua bagagem e experiência pessoal, lida com a doença de uma maneira particular e intransponível, mas existem alternativas a serem consideradas durante os tratamentos que podem aliviar o fardo da etiqueta oncológica. Estou falando do exercício da espiritualidade, como ela ajuda o paciente a lutar contra o câncer de uma maneira mais leve, e traz resultados positivos que impressionam.

ESPIRITUALIDADE É DIFERENTE DE RELIGIÃO?

Sim, de acordo com a psico-oncologista Regina Liberato, Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), “a religião e a fé são possíveis manifestações da espiritualidade, que, por sua vez, representa argumentos que permitem ao indivíduo transcender o pessoal, o ego, o individual.¹” Assim, apesar dos termos religião, religiosidade e espiritualidade serem entendidos por muitos como sinônimos, e estarem, de fato, intrinsecamente relacionados, eles apresentam características e significados diferentes.

Na verdade, a religião – ou a sua aplicação, a “religiosidade” – envolve um conjunto de crenças, linguagem e práticas que se baseiam em tradições sociais, com símbolos, rituais, cerimônias e explicações próprias acerca da vida e da morte. A espiritualidade, por outro lado, não se restringe a uma religião exclusiva, cultura ou a um grupo específico de pessoas, ela envolve valores pessoais e íntimos, usando-os para promover o crescimento pessoal de forma a gerar uma reflexão acerca das experiências vividas². O “exercício” espiritualidade promove a contemplação e reflexão de experiências existenciais e norteia a busca do sentido da vida³.

É POSSÍVEL TER ESPERANÇA FRENTE AO DIAGNÓSTICO ONCOLÓGICO?

A resposta simplista e mais aceita seria “sim, é possível”, mas, apesar de isso ser um fato positivo, na prática, a teoria pode ser muito diferente. Como eu disse anteriormente, cada paciente lida com o diagnóstico de uma maneira única, e não existem bulas a serem seguidas, como “os sete passos para ter esperança e lutar contra o câncer”. No entanto, a prática da espiritualidade e busca pelo significado da vida, além de trazer esperança, também podem ajudar na adesão ao tratamento e na melhora da resposta do organismo².

“Câncer” é um nome genérico e indiferente para designar mais de uma centena de doenças que têm uma coisa em comum: proliferação desordenada de células que invadem tecidos e órgãos. Entretanto, câncer não é uma sentença de morte. Um estudo brasileiro4 que averiguou o papel da fé no enfrentamento do câncer concluiu que, a partir dos relatos dos pacientes, aqueles que tiveram conteúdos psicoativos relacionados à fé reagiram com esperança diante do diagnóstico, auxiliando a adesão ao tratamento e na busca da cura ou da melhora da qualidade de vida.

E não foi só isso. De acordo com os pesquisadores, a manifestação da fé contribuiu também para manter a confiança dos pacientes na equipe de saúde, e isso ajudou na superação das demandas negativas da doença e do tratamento. O exercício da espiritualidade, apesar de não se saber exatamente como (e, talvez, não precisemos saber de tudo), proporciona uma “parada obrigatória” para amadurecimento pessoal, integridade e enfrentamento da situação vivenciada.

O amadurecimento e esperança fazem parte do trajeto, são conquistados tijolo por tijolo, e, às vezes, uma dúzia se perde pelo caminho, mas logo se recupera o trabalho perdido. Ver-se de maneira positiva influencia biologicamente na regulação do metabolismo, contribuindo para a resposta corporal às injúrias cancerosas².

DEVEMOS BUSCAR O (RES)SIGNIFICADO DA VIDA?

Por último, deixo aqui algumas perguntas para você, leitor:

O que faz sentido na sua vida?

Será que é preciso chegar a uma situação extrema para lidarmos com a significância da nossa existência?

Já parou para pensar como suas experiências pessoais refletem o seu posicionamento no mundo à sua volta?

E, por que a maior parte das pessoas só pára pra se analisar ante a uma situação negativa que inverte os rumos da sua história?

Pois bem, eu te convido a aplicar o “exercício” da espiritualidade continuamente, frente a um diagnóstico ruim ou não. Buscar a significância pessoal, ou, já que estamos em constante mudança, porque não a REssignificância, deveria ser uma ação corriqueira na nossa vida. Independentemente de crenças e valores, a autoanálise nos mostra como o nosso estado impacta os que estão à nossa volta, e ao nosso próprio organismo. Por fim, estar bem consigo mesmo faz bem à saúde.

Tem mais alguma outra dúvida sobre o assunto? Estou disposto a ajudar, entre em contato comigo!

Dr. Rafael Oliveira | Cirurgião Oncológico

Fontes:

¹ Psicóloga Regina Liberato, Presidente da SBPO, Instituto Oncoguia, “A Espiritualidade e o Câncer”. Disponível em:

http://www.oncoguia.org.br/conteudo/a-espiritualidade-e-o-cancer/2818/8/

² BENITES, Andréa Carolina et. al., “Significados da espiritualidade para pacientes com câncer em cuidados paliativos.” Disponível em:

DOI: 10.1590/1982-02752017000200008

³ Kovács, M. J., O Mundo da Saúde, “Espiritualidade e psicologia: cuidados compartilhados.”, Disponível em:

DOI: 10.15343/0104-7809.200731.2.12

4 Horta, C. R. et al., Psicologia da Saúde: perspectivas interdisciplinares (pp. 149-174), “O papel da fé no enfrentamento do câncer.”

Olá, você precisa de ajuda?